Extremo tem mascarado falta de rotinas
O ambiente em redor da LTU Arena não deixava dúvidas: só se viam portugueses de camisola vermelha e gregos vestidos de azul. Quem foi assistir ao Portugal-Grécia fê-lo em nome da pátria e por isso mesmo, como o jogo era na Alemanha, as bancadas se apresentaram semi-nuas. Ao jogo, faltaram os alemães, que podiam ter acorrido ao magnífico estádio de Düsseldorf para ver Cristiano Ronaldo, o melhor futebolista do Mundo na actualidade, extremo recordista de golos no Manchester United. Mas se a ausência de Ronaldo, dispensado por causa de mazelas musculares, podia funcionar como desafio para Luiz Felipe Scolari, que assim tinha a ocasião de perceber como se portava a equipa sem a sua maior estrela, ela foi seguramente a razão para o ostracismo a que os adeptos neutros votaram o jogo.
No final, após mais uma derrota, Luiz Felipe Scolari não estava satisfeito com a prestação da equipa e, apesar da ausência do craque, achou mesmo que "o jogo não foi diferente dos anteriores". Mesmo assim, questionado pelo DN sport, o seleccionador nacional admitiu que a falta da estrela do Manchester United deve ser lida numa perspectiva mais global e que traz coisas boas e más à equipa. "Muda muita coisa, porque a gente perde um jogador que é alto, que é forte, que tem velocidade e capacidade de imposição física e técnica. E se em alguns lances a equipa sai prejudicada, noutros ela até pode sair beneficiada", disse o seleccionador. Quais são então os benefícios e as perdas que Portugal sente quando não tem Ronaldo?
As perdas são evidentes. Falta um jogador com capacidade inigualável no um contra um, que é eficaz nas alas mas aparece muitas vezes a resolver na área - foi o melhor marcador da equipa na fase de qualificação - tanto em diagonais como até em cantos e livres laterais. Além de que falta um catalizador da audiência, uma estrela capaz de fazer pender para o lado português a preferência dos neutrais, algo que é tão importante numa prova como um campeonato da Europa. Neste caso, ao contrário do que sucedeu, por exemplo, na visita ao Koweit, no final da época passada, que Ronaldo não fez porque estava castigado e impedido de jogar dias antes na Bélgica, tendo dessa forma entrado de férias mais cedo, não foi sequer necessário convencer os organizadores acerca da inevitabilidade da ausência de Ronaldo. "Na altura foi diferente, mas também só nos comprometemos a apresentar a melhor equipa possível", conta Carlos Godinho, director desportivo das selecções. O jogo com o Koweit era de exibição, este de preparação.
Mais difícil é perceber o que pode ganhar a selecção sem o seu melhor jogador. Em redor da equipa, entre elementos próximos de alguns seleccionados, fala-se à boca-pequena na influência perniciosa que o craque do Manchester United tem no colectivo. Há quem o acuse de querer resolver tudo sozinho, de querer pegar na bola muito atrás, de reclamar toda a evidência para ele, dessa forma minando quaisquer tentativas de estabelecimento de uma rotina de jogo mais colectiva. O jogo de Düsseldorf, contudo, mostrou que essas rotinas não existem, mesmo sem Ronaldo estar em campo. A realidade prova duas coisas. Primeiro, que a liderança de Ronaldo no grupo está longe de ser consensual - muitos dos que andam na equipa há mais tempo não o aceitam como líder da mesma forma que aceitavam Figo, por exemplo, o que estará a retardar a sua nomeação definitiva como capitão. Depois, que mais do que perceber se a equipa não tem rotinas porque está viciada em Ronaldo ou se Ronaldo apenas ajuda a mascarar a falta dessas rotinas, o que importa é questionar o modelo de jogo devido a essa falta de rotinas. Mais do que saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, há que perceber como se faz uma boa omelete.
E o que se viu em Düsseldorf foi uma equipa melhor em 4x4x2 do que em 4x3x3. Sobretudo na primeira parte quando, após a troca de Simão por João Moutinho, pôde usar algumas movimentações do losango do Sporting, ainda não esquecidas por Carlos Martins e amplamente dominadas tanto por Moutinho como por Miguel Veloso, que estavam ambos em campo. "Melhorou com mais um no meio também porque a Grécia se colocou em vantagem e recuou no terreno", começou por admitir Scolari. Mas as melhorias já se notavam mesmo antes do primeiro golo grego, nascido de livre, contra a corrente do jogo. "Sim, só que nessa altura estávamos com mais bola, com mais domínio, mas sem capacidade para criar perigo na frente", contrapõe o seleccionador, assumindo que o esquema da selecção é e será o 4x3x3. "O nosso jogo não é com mais um médio, porque não é aí que temos muitos jogadores de qualidade", atalhou.
A verdade é que, sem Ronaldo e Nani e com Simão lesionado a qualidade nas alas não era muita. Restava Quaresma do lote de quatro extremos que Scolari vai levar à fase final do Europeu. E na segunda parte Portugal apareceu a jogar em 4x4x2 (podia ser um 4x2x3x1, pois Nuno Gomes recuava sempre uns metros em relação a Hugo Almeida), obrigando Carlos Martins e Jorge Ribeiro a jogarem mais abertos do que é habitual e João Moutinho a recuar para formar um duplo-pivot defensivo do meio-campo, ficando mais atrás do que seria recomendável para manter a influência no jogo. Portugal voltou então a perder capacidade de envolvimento colectivo e só reagiu após o golo de Nuno Gomes, ainda que muito mais em nome do coração que da clarividência do seu jogo. Porque, além da falta das rotinas colectivas, tanto em 4x4x2 como em 4x2x3x1 a equipa sentiu sempre falta da profundidade atacante que Ronaldo garante quando está em campo.
"Se voltarmos a ter de jogar sem o Ronaldo, assim já saberemos com o que contamos, já teremos trabalhado a forma de jogar sem ele. Jogámos com o Nani e com o Quaresma na Bélgica e agora com o Quaresma e o Simão", recapitulou Scolari, relegando sempre o 4x4x2 em que jogam quase todos os titulares do meio-campo e do ataque da selecção para a condição de esquema alternativo de um 4x3x3 sempre órfão de Maniche e sobretudo de Deco e Costinha.
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